quarta-feira, 30 de junho de 2010

Ex-emplo

Começar a trabalhar com 11 anos de idade para ajudar o pai na loja. Pagar sua própria escola com o dinheiro ganho no final do mês: era um bom exemplo a ser seguido. Passar no vestibular no 2º ano. Entrar na igreja e ser transformada em uma pessoa melhor a cada dia. Ajudar nas despesas de casa, dar um dinheiro para sua mãe ir ao salão, pagar uma roupa para irmã mais nova, comprar suas próprias coisas sem precisar pedir dinheiro ao seu pai. Ser um exemplo dentro da igreja, cheia de planos, projetos, sonhos para ajudar o sorriso do próximo eram exemplos. Eram bons exemplos. Ser boazinha, não responder a mãe, ser disponível para as pessoas, acordar de madrugada para cuidar de alguém. Distribuir toddy nos hospitais em pleno sábado à noite. Arrecadar alimentos para dar as necessitados. Eram exemplos a serem seguidos. Sempre acreditei muito numa frase de Albert Schweitzer: “Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única.”

Sinto-me como se eu tivesse nascido com uma blusa toda suja. E cada aniversário fosse lavando partes dessa blusa. Até que um dia as pessoas olharam e perceberam: “nossa a blusa dela esta ficando branca. Nossa a cada dia a blusa fica mais branca”. Eu lavava, esfregava, passava sabão... Lutava para ela ser branca de verdade. Deixei minha blusa de molho por dias para sair às machas, afinal são 19 anos com a mesma blusa. A cada dia as pessoas elogiavam mais a blusa... Estava de verdade ficando branca. Eu ficava noites sem dormir para todas as manchas saírem. Algumas manchas saíram, outras ficaram amarelas como se fosse uma blusa guardada, eram machas antigas... E por isso amarela, porém não menos importantes.

Nas conversas de minha mãe com minha irmã mais nova, meu nome era citado como um exemplo a seguido. “Não ver sua irmã. Faça como ela”. Para meu pai eu era a melhor filha que um homem pode ter. Minha família me tinha como alguém que não era a melhor pessoa do mundo, mas que tentava ser. Para os amigos eu era a disponibilidade em pessoa. Não era o remédio para a dor, mas sabia o numero da farmácia. Para as pessoas da igreja era alguém próxima de Deus, eles não erraram eu tentava ficar pertinho de Deus, mas quando mais me aproximava mais via as manchas da minha blusa. Deus é luz, claridade. As manchas aparecem logo.

Mas existia uma mancha que nunca saiu. Fiquei noites sem dormir, dias acordada com aquela blusa no balde. Passando sabão, água sanitária. Mas a macha continuava lá. Muitas vezes eu esquecia que ela existia. Nossa passei até anos sem lembrar. Principalmente quando estive ocupada sendo o exemplo de muitos. Aquela mancha era algo que eu poderia conviver sem problemas nenhum. Afinal ela ficava do lado de dentro da blusa ninguém notava. Só eu sabia, pois toda a noite antes de dormir eu tirava a blusa e lá estava ela olhando para mim. Mas no outro dia com ela no corpo eu não lembrava e nem fazia questão de lembrar, pois eu tinha outras manchas e eu lavei a blusa: uma, duas, três vezes e elas saíram, com essa não seria diferente, eu assim acreditava. Na verdade eu esqueci essa mancha por anos. E nem queria lembrar.
Mas foi diferente. A mancha não me incomodava, eu poderia conviver com ela. Mas o fato de todo mundo achar que eu era um exemplo, isso era pior do que a mancha em si. Eu me sentia uma farsa, me sentia um lixo, eu não era nada daquilo que as pessoas diziam. A minha vontade era de tirar aquela blusa e mostrar a mancha que tinha ali atrás. “Ei, eu tenho uma mancha, aqui dentro, ninguém nunca viu, mas ela existe.”

Nunca teria coragem de fazer isso. Chega uma hora se acostuma ser o que os outros acham que você é; olhando por outro lado você se cansa de ser o que você não é. Você se cansa. E foi assim, me cansei. Peguei minha blusa que já estava quase branca e só um mancha do lado de dentro e coloquei ela dentro de um balde de tinta preta, dessas que não sai com qualquer lavada. Eu sabia que no outro dia as pessoas iriam ver a blusa toda suja. Na verdade essa era a intenção. Não queria nada escondido, também não queria ninguém olhasse a blusa e visse suja, eu queria contar que tinha tomado tal decisão. Mas não deu tempo, antes que pudesse criar coragem para dizer qualquer coisa, as pessoas já tinham conversado entre si. Elas que chegaram e falaram: Ei, eu sei que sua blusa agora é preta. Aí eu só fiz afirmar: “É verdade eu coloquei ela num balde de tinta. Obrigada por me lembrar.”

Tinha pessoas que eu queria contar com minha própria boca, pessoas especiais, pessoas que são importantes para mim, mas não deu tempo. Tudo bem. Tem uma frase bacana: "Nunca se explique. Seus amigos não precisam, e seus inimigos não vão acreditar."

Depois que aparece com sua blusa preta você deixa de ser um exemplo em segundos. As coisas boas do seu caráter desaparecem. “Ela é até gente boa, estudiosa, trabalhadora, mas a blusa é preta.” Tudo que você construiu em anos, todos os sonhos, planos, seu próprio caráter desaparece as pessoas deixam de ver seus olhos e passam a enxergar só a cor da sua blusa.
O bacana na frase que eu citei é a ordem: Nunca se explique. Então sem explicações. Sem exemplos. A blusa é preta...

Depois que você coloca sua blusa dentro de um balde de tinta preta, toda frase tem um “mas”.

É, mas...

(...)

É, mas...

Exemplos bons só são os de blusas brancas, de preferência sem manchas. O que eu acho difícil. Como diria o Chico “Todo mundo tem/quem não tem/Procurando bem/Todo mundo tem”. Na verdade eu conheço muita gente de blusa branca nesse mundo. Conheço e me orgulho por ter conhecido. Conheço também pessoas que tem uma blusa preta, mas que por dentro a blusa é branca e mesmo que elas tentem colocar suas blusas no balde de tinta preta, dentro nunca sujou e nunca vai sujar; a blusa quando é branca - é branca.

Hoje o que me deixa mais triste é quando as pessoas me olham e vêem a cor da minha blusa falam: “Eu aprendi a lavar minha blusa com você, porque você manchou a sua?” É como se só com uma blusa branca você servisse, só com a blusa branca você entra aqui, só quero você com a blusa branca.

Ninguém percebe que a blusa é um detalhe de quem sou eu. Existe a calça, o sapato, os acessórios. Estou amando isso, pelo menos agora quem quiser ficar perto, vai ficar pela essência, pois sabem: a blusa é preta.

Antes quando pequena, eu tinha uma blusa cheia de manchas, que com o tempo fui lavando e tirando todas. Mas hoje não sei se quero passar por tudo aquilo novamente... Lavar todos os dias a blusa. Não tenho nem forças e nem coragem. Não nesse momento. A blusa vai ficar preta pelo menos por um tempo.

Então a historinha termina assim:

Eu era um exemplo, mas...
Jamille C Dias

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